imagem de fundo jesus o camelo e o buraco da agulha

Jesus Cristo, o Camelo e o Buraco da Agulha

A narrativa analisada é encontrada em Mt 19:24; Mc 10:25; Lc 18:25.

Recentemente perguntaram qual seria o meu entendimento do texto de Marcos 10.25, passagem que relata o encontro de Jesus com um jovem que tinha muitas riquezas.

Inicialmente comentei sobre a literalidade da expressão usada por Jesus, ao ponto dos seus interlocutores chegarem a seguinte conclusão: “Neste caso, quem pode ser salvo?” (Mc 10.26).

Analisando o contexto, vemos que essa passagem não apresenta grandes dificuldades de interpretação. Então, para identificar a origem das interpretações divergentes, que estão presente no meio evangélico brasileiro, iremos fazer uma rápida viagem na história.

Algumas interpretações encontradas nos primeiros séculos, revelam a grande resistência que esses leitores tiverem em entender e aceitar as palavras de Jesus.

Jesus queria mesmo dizer o que disse?

A discussão está na literalidade das palavras que Jesus usou, somadas ao contraste colossal dos elementos utilizados na comparação. Qual seria a intenção de utilizá-las?

A dureza de Jesus, ao falar da impossibilidade de um rico entrar no Reino de Deus, provocou espanto nos ouvintes de sua época e, até hoje, causa um profundo desconforto nos leitores dos evangelhos sinóticos.

Dom Estêvão Bettencourt (1919-2008), monge da Ordem de São Bento, teólogo brasileiro, comenta a origem dessas interpretações paralelas, que buscam amenizar as palavras de Jesus:

[…] alguns antigos leitores do Evangelho julgaram estranha demais a comparação ocorrente em Mt 19,24. Por isto S. Cirilo de Alexandria (+444) queria abrandá-la, diminuindo o tamanho do camelo, isto é, entendendo o camelo (kámelos, em grego) não no sentido de um animal, mas como se fosse a corda grossa ou o cabo (kámilos, em grego) ao qual os navegantes prendem a âncora de bordo; assim, por exemplo, se lê na tradução latina da obra desse apologeta dirigida contra o Imperador Juliano o Apóstata:

 

“Accipit ergo demonstrationem.foramen acuset camelus; non animal, ut opinatur Julianus impius et omnino insipiens et idiota, sedpotius rudens crassus qui in omni navi. Ita enim mos est nominandi iis qui docti sunt res nautarum” (Giuliani imperatoris librorum contra Christianos quae supersunt. Teubner 1880, pág. 56).

 

“O Senhor recorre a uma comparação, lembrando o buraco de uma agulha e um camelo: não camelo animal, como julga o ímpio Juliano… mas antes um cabo grosso tal como se encontra em toda nave. Tal é o expressionismo próprio dos peritos em navegação”. (Tradução)

 

Alguns outros poucos autores antigos interpretavam “camelo” do mesmo modo. Eis o que diz o “Tractatus de divitiis” (XVIII 1 e 2), atribuído ao bispo Fastídio (410-450) ou ao escritor pelagiano Agrícola (cerca de 429):

 

“Sed non de ca mel lo dictum est, inquies, cui per foramen acus transire penitus impossibile est, sed de camelo, id est, de náutico quodam fune.”

 

“Não se trata de um camelo propriamente dito, pois a este animal é de todo impossível passar pelo buraco de uma agulha, mas trata-se de um cabo usual em navegação”. (Tradução)

 

Outros comentadores de Mt 19,24, também desejosos de suavizar a hipérbole, julgam que Jesus tinha em vista pequena porta da cidade de Jerusalém chamada “Buraco da Agulha”, pequena porta pela qual os animais de carga só poderiam passar se fossem despojados da bagagem e dobrassem os joelhos; os homens só transitariam por aí caso se encurvassem.

Assim pensam alguns antigos e modernos intérpretes. Contudo a existência dessa porta é controvertida por arqueólogos competentes. Vão seria fundar a explicação dos dizeres de Jesus sobre tal hipótese.

 

Não há dúvida, a acepção literal do “camelo” e da “agulha” está bem na linha do pensamento semita; Jesus terá usado realmente essa comparação forte. Resta-nos então analisar o que o Divino Mestre queria dizer mediante tal força de expressão.

 

(Bettencourt, Estêvão.
http://www.pr.gonet.biz/kbase/kb646.htm, grifo nosso)

Abaixo destaco as palavras Camelo e Agulha, para não deixar dúvidas, conforme o dicionário Mickelson’s Enhanced Strong’s Dictionaries of the Greek and Hebrew Testaments:

G2574 κάμηλος kamelos (ka’-mee-los) n.
a “camel.”
[of Hebrew origin (H1581)]
KJV: camel
Root(s): H1581
Mickelson’s Enhanced Strong’s Dictionaries of the Greek and Hebrew Testaments
G4476 ῥαφίς rhaphis (rha-fiys’) n.
a needle.
[from a primary rhapto “to sew” (perhaps rather akin to the base of G4474 through the idea of puncturing)]
KJV: needle
See also: G4474
[?]

As confusões que rodeiam textos assim, mostram a realidade caída do coração humano. Quando uma verdade lhe é muito dura para ser admitida, este resiste e busca ansiosamente meios de uma auto justificação. Buscando se desvencilhar da culpa e do constrangimento diante da verdade.

A boa exegese Bíblica está em ler e deixar-se constranger.

“O que é impossível para os homens é possível para Deus.” (Lc 18.27)

Amém.

Anúncios

Deixe aqui seu comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s